Arte e Cultura    
   

Eu só queria mais um abraço...

     

Nada havia rolado entre nós, apenas gostosa amizade e uma grande relação de carinho e afinidade.  Mas, ela me enviou e-mail no início da semana do Natal, se despedindo e dizendo que iria viajar e não poderia mais corresponder pela internet, porque sairia de férias do trabalho naquele dia e não possuía computador em casa. Ao final da mensagem estava escrito ‘saudade’.

Saudade; palavra ainda não usada por ela em correspondências anteriores e que me remeteu ao significado ‘vontade de lhe ver’. Eu fiquei, no mínimo, diria, um pouco eufórico.

A alegria invadiu meus pensamentos ao imaginar que ainda teria a oportunidade de revê-la mais uma vez, antes de viajar, de lhe dar um abraço apertado e desejar-lhe boas festas e as melhores férias do mundo.

Uma lembrança! Seria uma surpresa dar a ela alguma coisa que representasse a figurinha sensível e delicada que eu enxergava nela. Tinha que ser algo com o jeito e o estilo dela: jovem, leve, despretensiosa, alegre... Tenho que pensar muito... Ou não!

A vida nos leva por trilhas, caminhos e corredores de shoppings, rsrsrsrsrsrsrsrsrs.

Exatamente quando planejava o quê presentear a ela – sou péssimo nessa hora –, saía de um supermercado num desses conjuntos arquitetônicos de lojas. No corredor, olhei à direita e numa joalheria observei um par de brincos super interessante. Uma lua, num; uma estrela, noutro. Jóia linda, suave, estilizada e lapidada à mão em prata de lei branca.

Entrei no estabelecimento e viajei nos artefatos, tentando imaginá-las naquele rosto... e a vendedora sacou que nem precisava elogiar os brincos: já estavam comprados.

Morena dos brincos de lua e estrela,
você tem lugar em meus sonhos...
O nome dela rima com rara,
Mas, meus olhos estão tristonhos...

Passei uma mensagem para o celular dela, dizendo que eu sentia uma gostosa emoção quando estava sozinho e vislumbrava sua imagem, e que precisava lhe dar mais um abraço, antes da viagem.

Pensava que o encontro podia ser na hora de ela embarcar na rodoviária – eu poderia levá-la até lá –, mas era muito importante eu poder abraçá-la, mais uma vez – depois seria distante, quase um mês de saudade...

A mensagem foi passada na quarta, a viagem dela seria na sexta, para passar o Natal com a família no interior das Gerais.... Quinta-feira e nada de respostas, nem por celular ou via e-mail... Será que ela estava sem créditos? Quero ligar prá ela... Não posso, não me considero com esse privilégio... Idiota!!!... Caramba!!!... Sexta-feira, acordei cedo... Nada... Chegou a hora da partida... Ela se foi... Nem um oi... Snif!

Sexta-feira longa... A noite de Natal transcorria com chuvas leves e intermitentes... Saí andando pelas ruas de Belo Horizonte, curtindo a beleza do desperdício de energia em milhares de luzes coloridas, formando ícones natalinos e, quase sem querer, fui parar na Praça da Liberdade. Sentei num banco e, num outro, vi algumas moças.

Passei a mão num bolso da jaqueta e senti a expressiva embalagem de camurça preta com os brincos. Esse era um presente de Natal e tinha que ser entregue nessa data. Além disso, o volume do embrulho estava me focando, me lembrando de algo que não mais seria realizável.

Reparei as jovens e tentei adivinhar qual delas seria a mais carente.

Não sei se acertei. Mas, a caixinha a uma delas entreguei, dizendo que era um presente de uma pessoa tímida, apaixonada por ela, que a amava muito e com o tempo ela iria saber quem era esse rapaz – eles iriam se descobrir.

Por um momento, o brilho dos olhos daquela desconhecida ofuscou as luzes de Natal. E eu ganhei um delicioso e emocionado abraço.

Volto prá casa e esquento café no fogão, tomo café brasileiro, mas não vejo futebol na televisão...

     
Autor: Vicente Ines Quintão
     
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